{"id":1768,"date":"2016-07-18T17:24:43","date_gmt":"2016-07-18T19:24:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/?p=1768"},"modified":"2016-07-18T20:31:23","modified_gmt":"2016-07-18T22:31:23","slug":"leituras-literarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/leituras-literarias\/","title":{"rendered":"Leituras&#8230; Liter\u00e1rias?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">\n\t<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" alt=\"leituras-literarias\" class=\"alignleft size-full wp-image-1788\" height=\"309\" src=\"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/leituras-literarias.jpg\" width=\"332\" srcset=\"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/leituras-literarias.jpg 332w, https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/leituras-literarias-300x279.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 332px) 100vw, 332px\" \/>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n\tInauguramos aqui uma nova categoria em nosso blog, com a intens&atilde;o de abrirmos um espa&ccedil;o para &nbsp;o partilhar as paix&otilde;es liter&aacute;rias que nos afetam em nossas jornadas educativas&hellip;\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\tPara coroar esse momento, pegamos por empr&eacute;stimo as palavras escritas por Clarice em &ldquo;Felicidade Clandestina&rdquo; que &nbsp;nos demonstram, claramente (sem intens&atilde;o de trocadilhos&hellip;), o poder que tem &nbsp;um bom livro, uma boa literatura e os sentimentos que podem suscitar &nbsp;nas pessoas!\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\tBem-vindos ao &ldquo;Leituras, liter&aacute;rias!&rdquo;\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right;\">\n\t&nbsp;\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right;\">\n\t<span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\"><span style=\"font-size:16px;\"><strong>Felicidade clandestina <\/strong><\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto n&oacute;s todas ainda &eacute;ramos achatadas. Como se n&atilde;o bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possu&iacute;a o que qualquer crian&ccedil;a devoradora de hist&oacute;rias gostaria de ter: um pai dono de livraria.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">Pouco aproveitava. E n&oacute;s menos ainda: at&eacute; para anivers&aacute;rio, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em m&atilde;os um cart&atilde;o-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde mor&aacute;vamos, com suas pontes mais do que vistas. Atr&aacute;s escrevia com letra bordad&iacute;ssima palavras como &quot;data natal&iacute;cia&quot; e &quot;saudade&quot;.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingan&ccedil;a, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, n&oacute;s que &eacute;ramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha &acirc;nsia de ler, eu nem notava as humilha&ccedil;&otilde;es a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela n&atilde;o lia.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">At&eacute; que veio para ela o magno dia de come&ccedil;ar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possu&iacute;a As reina&ccedil;&otilde;es de Narizinho, de Monteiro Lobato.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">At&eacute; o dia seguinte eu me transformei na pr&oacute;pria esperan&ccedil;a da alegria: eu n&atilde;o vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">No dia seguinte fui &agrave; sua casa, literalmente correndo. Ela n&atilde;o morava num sobrado como eu, e sim numa casa. N&atilde;o me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para busc&aacute;-lo. Boquiaberta, sa&iacute; devagar, mas em breve a esperan&ccedil;a de novo me tomava toda e eu recome&ccedil;ava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem ca&iacute;: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e n&atilde;o ca&iacute; nenhuma vez.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">Mas n&atilde;o ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diab&oacute;lico. No dia seguinte l&aacute; estava eu &agrave; porta de sua casa, com um sorriso e o cora&ccedil;&atilde;o batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda n&atilde;o estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do &quot;dia seguinte&quot; com ela ia se repetir com meu cora&ccedil;&atilde;o batendo.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">E assim continuou. Quanto tempo? N&atilde;o sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel n&atilde;o escorresse todo de seu corpo grosso. Eu j&aacute; come&ccedil;ara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, &agrave;s vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, &agrave;s vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">Quanto tempo? Eu ia diariamente &agrave; sua casa, sem faltar um dia sequer. &Agrave;s vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas voc&ecirc; s&oacute; veio de manh&atilde;, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que n&atilde;o era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">At&eacute; que um dia, quando eu estava &agrave; porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua m&atilde;e. Ela devia estar estranhando a apari&ccedil;&atilde;o muda e di&aacute;ria daquela menina &agrave; porta de sua casa. Pediu explica&ccedil;&otilde;es a n&oacute;s duas. Houve uma confus&atilde;o silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de n&atilde;o estar entendendo. At&eacute; que essa m&atilde;e boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e voc&ecirc; nem quis ler!<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">E o pior para essa mulher n&atilde;o era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em sil&ecirc;ncio: a pot&ecirc;ncia de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em p&eacute; &agrave; porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi ent&atilde;o que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: voc&ecirc; vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: &quot;E voc&ecirc; fica com o livro por quanto tempo quiser.&quot; Entendem? Valia mais do que me dar o livro: &quot;pelo tempo que eu quisesse&quot; &eacute; tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na m&atilde;o. Acho que eu n&atilde;o disse nada. Peguei o livro. N&atilde;o, n&atilde;o sa&iacute; pulando como sempre. Sa&iacute; andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas m&atilde;os, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei at&eacute; chegar em casa, tamb&eacute;m pouco importa. Meu peito estava quente, meu cora&ccedil;&atilde;o pensativo.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">Chegando em casa, n&atilde;o comecei a ler. Fingia que n&atilde;o o tinha, s&oacute; para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer p&atilde;o com manteiga, fingi que n&atilde;o sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu j&aacute; pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar&hellip; Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">&Agrave;s vezes sentava-me na rede, balan&ccedil;ando-me com o livro aberto no colo, sem toc&aacute;-lo, em &ecirc;xtase pur&iacute;ssimo.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\t<span style=\"font-size:14px;\"><span style=\"color:#000033;\"><span style=\"font-family:georgia,serif;\">N&atilde;o era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.<\/span><\/span><\/span>\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: justify;\">\n\tConto de: Clarice Lispector<br \/>\n\t<em>Fonte: O Primeiro Beijo.<\/em> S&atilde;o Paulo, Ed. &Aacute;tica, 1996\n<\/p>\n<p dir=\"ltr\" style=\"text-align: right;\">\n\t<em><strong>Por Sheilla Andr&eacute;<\/strong><br \/>\n\t<strong>Gerente do Centro de Forma&ccedil;&atilde;o UNIEPRE<\/strong><br \/>\n\t<strong>Contato:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/contato\/\" target=\"_blank\">centrodeforma&ccedil;&atilde;o@uniepre.com.br<\/a><\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inauguramos aqui uma nova categoria em nosso blog, com a intens&atilde;o de abrirmos um espa&ccedil;o para &nbsp;o partilhar as paix&otilde;es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":118,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[39],"tags":[],"class_list":["post-1768","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leituras-literarias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/118"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1768"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1768\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1781,"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1768\/revisions\/1781"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.uniepre.com.br\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}