Todas as vezes que pergunto a grupos de educadores e gestores se eles acreditam que brincar é importante, a resposta é sim.

E se a resposta é sempre sim, pergunto a eles se podem me explicar o porquê de tantos cursos, palestras livros e TCC´s sobre o assunto. 

Rudolf Steiner, Freinet, Winnicott, Emmi Pikler, Montessori e outros tentaram nos dizer por que brincar é importante, mas, nós ainda não entendemos, ou não acreditamos. Só repetimos os mesmos discursos que ouvimos desde a faculdade até aquele curso com aquele especialista. Visite creches, pré-escolas, casas de acolhimento e concordará comigo.

Nos últimos cinco anos, passei por quase três dezenas de instituições observando a mesma coisa: Pausas na brincadeira para as famosas “atividades”.

É por essa tão bem situada, conhecida e executada “atividade” que vou trazer uma perspectiva nova para a compreensão do que é o brincar. 

Uma vez eu observava um grupo de crianças brincando na areia. Eles estavam bem concentrados na tarefa de recolher folhas, gravetos, pedras, encher um recipiente com água a fim de construir um bolo. Flores foram recolhidas para enfeitar o doce e as regras para a execução da tarefa pareciam estar bem estabelecidas.

Enquanto o empenho no trabalho me surpreendia observei que as duas educadoras conversavam alegremente entre si até que uma delas disse: Acabou o tempo , vamos para a sala.

 As crianças relutaram, mas a professora voltou a chamar explicando que outra turma iria para o parque agora.

Acompanhei a lavagem das mãos e a roda que se formou na sala.

A professora explicou que era a hora da atividade.

E para a minha surpresa… Era uma atividade sobre liso e áspero de um projeto chamado: Sensações.  

As crianças tiraram novamente o tênis e uma a uma passava sobre um tapete feito de tecido que continha areia, pedra, e lã. E a professora nomeava: A areia é áspera, a lã é macia.

Fizeram isso uma vez apenas. A professora dobrou o tapete, guardou e, então, levou a turma para o lanche.

A incoerência que percebi naquele dia não está relacionada a ação da professora que parece ter ficado um bom tempo se dedicando no preparo de sua atividade , a incoerência está em que , infelizmente , pouco sabemos sobre os Conteúdos do Brincar .

Sim, existem conteúdos acadêmicos complexos no brincar de bebês e crianças pequenas, mas como aprendemos a categorizar e a separar todo o conhecimento, quando vemos um bebê e criança pequena em ação, não conseguimos nos dar conta do que ela verdadeiramente está fazendo.

Vamos voltar no tempo e pensar sobre quais conteúdos a criança estudava no tanque de areia :

O PESO das pedras, das flores, da água, da areia, a TEXTURA, a COR, a TEMPERATURA de cada um destes materiais, a FORMA, as NOÇÔES DE QUANTIDADE, de CONTAGEM e de AVALIAÇÂO DE DISTÂNCIA, DE TAMANHO.  A estes conteúdos soma-se que nesta experiência as crianças aprendiam habilidades sociais como CRIAR REGRAS, TRABALHAR EM GRUPO, FORMULAR ESTRATÈGIAS além vivenciarem a NOÇÂO DE COMPETÊNCIA.

Isso se chama atividade: Nas palavras de Vygostsky: As crianças estão em ATIVIDADE quando suas funções superiores estão em funcionamento.

Um olhar integrador pode agora fazer o leitor a pensar na atividade de textura em sala…

Muitas vezes me deparo com estas incoerências.

 Lavamos rápidas as mãos das crianças, não permitimos que elas levem adiante seu encantamento pelas bolhas de sabão, pela água que toca lentamente a suas mãos e, depois ,fazemos um projeto sobre higiene .

Não as deixamos brincar livremente com latas ou caixas que podem fazê-la experiências e compreender muito do comportamento dos cilindros e paralelepípedos e depois fazemos uma “atividade” sobre círculo, triangulo e retângulo.

Não as deixamos comer com as mãos e depois fazemos uma “atividade” de coordenação motora fina.

As crianças experimentam as mesmas sensações que levaram as mais importantes descobertas sobre matemática e física quando interagem e agem, levando adiante projetos cognitivos e afetivos .

O papel do professor não é criar atividades , mas , criar possibilidades para que as crianças , por sua própria iniciativa faça suas próprias descobertas e relações sobre os conteúdos da física e da matemática  que são próprios dos materiais e espaços em que ela vive .

Quer saber mais sobre isso ?

Venha fazer o curso: Matemática na Educação infantil.

Sobre a matemática e a física que as crianças aprendem
quando não estão fazendo “atividades”.
Leila Oliveira Costa